E se você não estiver sendo superficial? Talvez só esteja cansado.

Você já reparou que até descansar parece ter virado uma coisa errada?

Você abre uma rede social depois de um dia cansativo e encontra alguém dizendo que você deveria estar aprendendo alguma coisa.

“Faça isso para ficar mais inteligente.”

“Pare de fazer aquilo.”

“Esses são os hábitos das pessoas bem-sucedidas.”

“Eu fiz isso durante seis meses e mudei minha vida.”

E, de repente, até aqueles poucos minutos em que você queria simplesmente rir de um vídeo sem importância parecem representar uma falha sua.

Como se, enquanto você ri, alguém estivesse ficando mais inteligente.

Enquanto você descansa, alguém estivesse enriquecendo.

Enquanto você assiste a alguma coisa superficial, alguém estivesse “evoluindo”.

Mas será que é realmente assim?

Talvez aquela pessoa não queira aprender nada naquele momento.

Talvez ela tenha passado o dia inteiro pensando.

Talvez tenha resolvido problemas, cuidado de alguém, trabalhado, recebido uma notícia ruim, lidado com uma preocupação que ninguém viu.

Talvez ela simplesmente esteja cansada.

E talvez rir de alguma coisa idiota seja exatamente o que ela precisava.

Consumir conteúdo leve não torna ninguém menos inteligente.

Uma pessoa não deixa de ser profunda porque, durante alguns minutos, escolheu não ser.

Descanso não é falta de inteligência.

E entretenimento não precisa justificar sua existência.

Existe uma quantidade enorme de pessoas ensinando você a pensar, agir, acordar, dormir, trabalhar, enriquecer, se relacionar e até descansar.

São listas.

Fórmulas.

Regras.

Sete coisas que você precisa fazer.

Cinco coisas que pessoas inteligentes nunca fazem.

Três hábitos que mudaram a vida de alguém em seis meses.

E não há necessariamente nada errado em aprender com outras pessoas.

O problema começa quando conselho vira fórmula e fórmula começa a produzir inadequação.

Porque a mensagem deixa de ser “isso funcionou comigo” e começa, silenciosamente, a parecer:

“Se não funcionou com você, talvez você esteja fazendo tudo errado.”

É curioso ver tanta gente dizendo “pense por você mesmo” enquanto explica exatamente o que você deveria pensar.

Não somos obrigados a transformar cada conselho em uma regra.

Não precisamos transformar cada especialista em dono da verdade.

E não precisamos considerar burras as pessoas que simplesmente escolheram consumir outra coisa.

Talvez exista uma razão para tanta gente procurar conteúdo sobre ansiedade, depressão, produtividade, sono, relacionamentos, dinheiro, propósito e desenvolvimento pessoal.

Talvez estejamos vivendo uma época em que as pessoas estão cansadas de tentar dar conta de tudo.

E, quando alguém está esgotado, nem sempre procura uma grande transformação.

Às vezes procura só alguns segundos em que ninguém está exigindo nada dela.

Talvez por isso eu queira gritar.

Chorar.

Rir.

Xingar.

Falar.

Colocar para fora.

Qualquer coisa que faça aquilo que ficou preso dentro de mim encontrar uma saída.

Porque existe coisa demais rodando aqui dentro.

E talvez eu não precise de alguém dizendo imediatamente o que devo fazer.

Talvez, antes disso, eu só precise que alguém olhe para mim e diga:

“Eu estou vendo você.”

Olha para mim. Eu estou aqui.

Não estou dizendo que tenho todas as respostas.

Não estou tentando ensinar você a viver.

Estou apenas tentando colocar em palavras algumas coisas que ficam rodando dentro da minha cabeça.

E talvez, enquanto eu falo, você perceba que alguma delas também estava rodando dentro da sua.

Talvez a gente não precise estar evoluindo o tempo inteiro.

Talvez algumas vezes possamos simplesmente existir.

Rir de alguma bobagem.

Chorar quando der vontade.

Falar um palavrão.

Ficar em silêncio.

Pensar.

Não pensar.

E respirar.

Porque talvez descansar da obrigação de ser alguém melhor também seja uma forma de cuidar de quem já está cansado de tentar.




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