
CONTROLE A SITUAÇÃO ANTES QUE ELA CONTROLE VOCÊ
— Eu acho que estou tentando controlar tudo.
— Tudo o quê?
— Não sei… tudo.
O que vai acontecer.
O que as pessoas vão pensar.
Se aquela conversa vai dar errado.
Se eu tomei a decisão certa.
Se alguma coisa vai acontecer amanhã.
— E quando você percebe que não consegue controlar?
— Eu fico angustiada.
Minha cabeça começa a procurar respostas.
Eu penso em uma possibilidade, depois em outra.
Imagino o pior.
Volto para conversas que já aconteceram.
Penso no que eu poderia ter dito.
No que deveria ter feito.
É como se minha mente entrasse em um loop interminável tentando encontrar uma resposta para alguma coisa que talvez nem tenha resposta.
E o pior é que, depois de tanto pensar, eu nem percebo o quanto estou cansada.
Eu só sei que estou exausta.
— Mas isso também acontece quando você precisa fazer alguma coisa?
— Muito.
Às vezes eu penso que preciso conversar com meu chefe.
Eu ensaio o que vou dizer.
Crio situações na minha cabeça.
Imagino as perguntas.
As respostas estão na ponta da língua.
Mas chega a hora…
Eu travo.
Dá branco.
E eu fico pensando:
“Mas eu sabia o que queria falar.”
Não é porque eu não sabia.
Talvez eu tenha colocado tanta pressão naquele momento que o controle tomou o lugar daquilo que eu realmente queria dizer.
Eu queria controlar a conversa.
A reação dele.
A maneira como ele iria me enxergar.
Queria falar tudo certo.
Queria não me arrepender depois.
Só que eu não controlo nenhuma dessas coisas.
E aí vem a insegurança.
A frustração de não conseguir mostrar o meu ponto de vista.
E depois eu continuo a conversa sozinha, dentro da minha cabeça.
Penso no que deveria ter falado.
No que poderia ter respondido.
No momento em que deveria ter me posicionado.
E começo a me punir.
Não conscientemente.
Porque ninguém quer ser o próprio carrasco.
Mas talvez seja justamente isso que torne tudo ainda mais difícil:
Eu sei que esse jeito de pensar está me fazendo mal, mas não consigo simplesmente mandar a minha mente parar.
E quando alguém diz:
“Não se culpe.”
“Você não precisa controlar tudo.”
“Tire esse peso de você.”
Eu até entendo.
No fundo, eu sei que faz sentido.
Mas internamente não funciona assim.
Se fosse fácil, eu já teria feito.
Talvez o que eu precise não seja de alguém me dizendo que eu deveria controlar menos.
Talvez eu só precisasse conseguir falar:
“Isso aconteceu comigo.”
Sem precisar imediatamente transformar aquilo em uma solução.
Porque nem sempre, quando eu conto uma frustração, eu estou pedindo um conselho.
Às vezes eu só quero falar.
Quero colocar para fora aquilo que não consegui dizer para a pessoa que realmente precisava ouvir.
E talvez seja por isso que, algumas vezes, depois de contar tudo para alguém, eu me arrependa.
Porque a pessoa tenta me ajudar.
Me dá uma sugestão.
Me mostra uma solução.
E eu penso:
“Eu já sabia disso.”
Eu sabia.
Só precisava conseguir colocar em palavras o que estava preso dentro de mim.
E eu também faço isso comigo.
Racionalmente, eu sei o que preciso mudar.
Eu converso comigo mesma.
Entendo.
Organizo mentalmente.
Tento lembrar de respirar.
Tento perceber quando os pensamentos começam.
Às vezes, depois de conversar com um profissional, eu saio pensando:
“Agora eu entendi.”
“Dessa vez eu vou fazer diferente.”
Eu me sinto confiante.
Mas algumas horas depois…
tudo parece voltar para o mesmo lugar.
E vem outra frustração:
“Mas eu já sei disso. Por que ainda estou fazendo a mesma coisa?”
E talvez essa seja a minha maior dualidade.
Racionalmente, eu sei.
Eu sei que não preciso controlar tudo.
Sei que pensar mais nem sempre vai me dar uma resposta.
Sei que algumas coisas estão fora das minhas mãos.
Mas emocionalmente, às vezes, eu ainda não consigo viver aquilo que já compreendi.
É como se uma parte de mim entendesse perfeitamente o que está acontecendo, enquanto outra ainda estivesse tentando encontrar segurança através do controle.
Eu sei uma coisa.
Mas sinto outra.
E talvez seja justamente por isso que mudar não acontece só porque eu entendi.
Você pode saber exatamente o que precisa fazer e ainda não conseguir fazer naquele momento.
Isso não significa que você não entendeu.
Talvez exista um caminho entre entender alguma coisa e conseguir vivê-la.
E talvez eu também esteja tentando controlar o tempo que preciso para mudar.
Eu quero entender hoje.
Mudar hoje.
Conseguir hoje.
Mas talvez algumas coisas não funcionem assim.
Você não tem um prazo para finalmente mudar.
Não existe um dia em que você deveria acordar e simplesmente não sentir mais aquilo.
Talvez você precise encontrar o seu próprio tempo.
Do seu jeito.
Porque existe uma diferença entre a mente entender alguma coisa e o corpo começar a acreditar nela.
Às vezes, você precisa repetir.
Experimentar.
Voltar.
Tentar novamente.
Dar um passo pequeno.
Depois outro.
É parecido com uma criança aprendendo a andar.
Ela não nasce sabendo.
Primeiro observa.
Depois se movimenta.
Cai.
Tenta novamente.
Passa por tantas fases antes de conseguir dar os primeiros passos.
E ninguém olha para uma criança tentando andar e diz:
“Você já deveria ter conseguido.”
Então talvez você também não precise fazer isso consigo.
Talvez o seu processo não esteja atrasado.
Talvez ele simplesmente ainda esteja acontecendo.
E, enquanto isso, você pode continuar percebendo:
“Hoje eu consegui um pouco.”
“Hoje eu percebi antes.”
“Hoje eu não fui tão longe naquele pensamento.”
“Hoje eu consegui deixar passar.”
Pode parecer pouco.
Mas não é.
Porque mudança nem sempre acontece naquele momento bonito em que tudo finalmente faz sentido.
Às vezes ela acontece quase sem você perceber.
Até que, pouco a pouco, sua mente e seu corpo começam a caminhar na mesma direção.
E você percebe que aquilo que antes precisava ser repetido tantas vezes para você entender…
agora começou a fazer parte de você.
Talvez não seja sobre descobrir quando você vai mudar.
Talvez seja sobre não transformar o tempo que você precisa em mais uma coisa para controlar.
Você pode estar chegando lá.
Só talvez ainda esteja aprendendo a andar até lá.
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